2 de junho de 2016

Colar de Pérolas & O Pingente, de Maria Montillarez

Trecho do livro: Colar de Pérolas e O Pingente, da escritora Maria Montillarez:



P r e â m b u l o
(Por Lucinda da Consolação — personagem narradora da história deste livro Colar de Pérolas)
 
Algumas pessoas viveram experiências surreais e afirmam terem "nascido de novo" e outra vez... Ou seja, nasceram duas ou mais vezes.
Dentre as que mais "nascem de novo" e repetidamente estão aqueles profissionais cujas
profissões os expõem com frequência ao perigo. Mas também existem exemplos de gente comum, saída com vida de acidentes graves.
Tudo é modo de renascer.
Concebi a ideia de renascimento quando entendi que eu não me enquadrava em nenhum desses dois casos. Renasci por opção e tive três homens nessa gênese: Gabriel e Andrey Rezek (irmãos) e Vincent Travatti. Conheci-os na seguinte ordem: Vincent Travatti, Andrey e seu amigo, Mauro Costabrava um doce bastante amargo , depois Gabriel.
Minha necessidade de nascer de novo foi o modo que encontrei de sobreviver a primeira vida, uma primeira vida que eu me recusei a aceitar. Motivos? Oh!, eu os tinha!, e eles se iniciavam em minha família consanguínea: meu pai, gaúcho severo, depois minha mãe, sergipana submissa ao meu pai. Éramos doze frutos de duas árvores hipócritas, meus pais, e como todos os frutos naturalmente caímos junto ao pé.
Todos de minha família eram sempre impiedosamente discordantes ante minhas escolhas, e eu rejeitava a ideia de me dizer “vítima”, porque defino vítima como aquele (a) que é derrotado (a). E eu estava só começando a lutar.  
Eu refletia que tudo quanto buscasse haveria de ser em contestação a vidas alicerçadas em aparências e crenças que sucumbiriam a testes de resistência e veracidade; que o andar dos dias prestava-se a finalidades mais elevadas. Desejava ardentemente conferir as tais finalidades; elas certamente iriam além de nos agrupar anos, os quais sutis ou às escâncaras tentamos camuflar.
Felizmente, na medida em que os anos se somavam à data do meu nascimento, correspondi prontamente ao esperado e parti para construir meu mundo particular. Precisava de um. Precisava também ir aos poucos esvaziando meus milhares de baldes de ingenuidade. Não chegaria longe com eles. Pesavam e comprometiam minha visão da realidade da vida. Para minha pouca idade eu até que era bem madura, mas para meu projeto, essa maturidade estava aquém. 
A quem olhasse podia parecer cedo demais, mas para mim, quanto antes começasse, melhor. Eu nascera em 1967, e essa geração carregava às veias sangue quente, determinação para mudar o país. Eu tinha objetivo mais modesto: renovar a pessoa em mim, renascer.
Para tanto, eu constatara cedo, deveria fabricar uma família extrassanguínea, escolhendo os melhores seres humanos que cruzassem meu caminho. Em primeira atitude estava a busca de amigos, pois que sem eles, eu estaria figurativamente órfã. Dar-lhes-ia oportunidade de provarem seu valor, sua lealdade para com os demais, a honestidade consigo mesmos, e a mim, o que eu supunha merecer desde o nascimento: uma boa família. Hipocrisia em mim restasse, e corromperia meu exército, anulando meus objetivos. Assim, eu tinha como uma de minhas grandes empreitadas extirpá-la de dentro de mim (em definitivo), pois eu era hipocrisia decantada e armazenada em odre nobre.
Meu primeiro amor foi Gabriel Rezek. Ah!, que saudade indissolúvel! Ele morreu. Fiquei viúva no sentimento por ele. Sofri quase a morrer também, mas vivi e demorei a saber o porquê. No princípio só sobrevivia de revolta e desejos sinistros. Hoje, quase à meia idade, sei bem porque a morte me rejeitou: eu tinha um papel no mundo. Não, não acho que a morte seja aleatória. Ela é seletiva. Por quê? Quisera eu saber. Talvez porque seja parte integrante de Deus. Desacredito que o diabo possa tanto. Morre-se, e como se morre, é orquestramento Divino, do tipo: “Faça-se a luz!” E a luz foi feita. A morte é a escuridão para a vida; o oposto de “Faça-se o homem!” E o homem foi feito, ou desfeito.
Gabriel, ah! Meu doce anjo!... Mesmo depois de ele morrer, fez muito por mim. Num plano incompreensível pela maioria dos humanos, ele renasceu por mim, como uma terna viagem espectral, que somente no decorrer dessa história irá se desenrolar ao leitor.
Em eu verificar que a renovação da pessoa demandaria tempo, tratei de me ocupar de atividades afins, ou de meras ferramentas de sobrevivência, embora urgisse construir um mundo. Tentei outro(s) namorado(s), busquei alargar minha teia de amigos, pois não se constrói um mundo sozinha, tampouco num instante. Por outro turno, a necessidade de um mundo novo pode ser percebida num átimo.
Eu principiara o processo de reconstrução do meu novo mundo, crendo merecer o melhor, desejando cercar-me de pessoas de mentes abertas, esclarecidas, a nata, pois que essa era minha noção mais básica da importância do ser humano. O ser humano, nessa minha etapa primitiva, não valia pelo que era essencialmente, mas pelo que socialmente representava.
O momento em que sobre isso refleti, já depois da morte de Gabriel, aconteceu em um daqueles exercícios mentais de introspecção, os mesmos que se tornaram rituais em meu existir, tal qual o de me alimentar, dormir... Eu vinha avaliando e comparando aqueles três grandes amores de minha vida: Gabriel e seu irmão Andrey Rezek e Vincent Travatti. Três titãs que clareavam a cúpula escura, revestidora de meu mundo turvo. Eles me erigiam, conforme havia possibilidade, até que eu visse a luz. Eles cumpriram esses papéis, todavia isso despertou em mim a necessidade de me despir daquela que não era eu e que, sobretudo, eu repudiava quem fosse. Dessa feita, aquele trio do bem, amou-me sem medir a importância da representatividade de meu papel social perante o mundo deles. Essa minudência acordou a verdadeira Lucinda em mim.
Antes, porém, de dissertar sobre esse fundamento comparativo que me norteou, convém desmentir quaisquer impressões de que haja sido fácil detectar e expungir essa mácula de meu caráter, a hipocrisia. Apresso-me em explicar, por ora superficialmente, a agonia que é despir-se duma índole, por mínima que ela seja.
Veja-se que, por mais pisadas que hajam sido as etapas de infância e adolescência de alguém, a imaturidade sempre constará de qualquer currículo existencial. Não se pode galgar a maturidade total sem algum grau de experimentação, aquele que só é agregado ao ser humano no transcorrer da vida. A maturidade quase sempre é transportada no mesmo veículo que nos acumula a idade sobre os ombros. Então, talvez eu pudesse justificar-me, atribuindo a essa imaturidade todas as falhas no tônus raso que constituía minha personalidade. Mas não, nego-me a usar subterfúgios tão ingênuos e fáceis de serem contestados em qualquer tribunal do senso comum. Eu não seria estúpida a tal ponto.
Por isso, preciso enfatizar o quanto doeu a incursão que tive de fazer para dentro de meu "eu”, porque uma vez diagnosticado o mecanismo que me corrompia, era preciso desativá-lo. Eis o grande enfrentamento autoflagelante! Eu devia remover esse mecanismo danoso, retornando a minha base de controle mental, sem causar estragos colaterais, além daqueles suportáveis, e isso é algo impossível de medir ou testar, senão, por intermédio do método de acerto e erro.
A estrada que eu estava tentando mapear para seguir era como andar sobre brasas. Todavia não me acovardei. Jamais conheci a verdadeira função da covardia, portanto, aqui, ela não foi aplicada. Enfrentei meus demônios interiores, meus medos. É claro que o momento exato de fazê-lo foi acionado pela alavanca da dor e da observação, direcionada aos três grandes homens, anteriormente citados, que me amaram e aos quais amei.
Aqueles três cavalheiros se prenderam a uma essência em mim que eu apenas supusera existir. Durante, e depois do convívio com eles, tive certeza de que, se eles viam em mim algo que eu suspeitava existir, convinha investir numa busca, como se buscasse o ar. Não somente parecia me convir. Foi mais do que isso. Eu passara a crer que só em meu verdadeiro "eu” ser liberto, defrontar-me-ia com o nascedouro de minha paz interior, ou um sentir nomenclaturado de felicidade.
Eles, pois, viram meu interior, viram o melhor de mim. O modo como me viam, fazia eclodir o meu lado mais essencial. Eu era com eles, quem eu realmente desejava ser. Com Gabriel, eu me sentia inteira, com Vincent, eu me sentia gente. Andrey Rezek era meu porto.
Essa tradução útil, de mim por mim mesma, dava-me sentido de vida e de quietude interior; de ilimitado bem-estar. O meu foco e tema reinavam absolutos naquele êxtase pessoal. O que restava de mim, afora isso, configurava-se inexpressivo, sem qualquer potencialidade valorável como ser humano.
Dito isso, ratifico a afirmação anterior de que a necessidade de um mundo novo possa ser percebida num átimo, mas também faço a adenda de que não é somente a necessidade de um mundo novo que pode ser percebida num átimo; a dimensão do mundo que se tem, o velho mundo interior, esse também pode se expor à vista em um piscar de cílios.
Portanto, eu media e comparava o amor recíproco acontecido entre mim, Gabriel e Vincent, quando se deu o estalo, um tipo de heureca ainda embaçada, semelhante à visão que temos quando nos encontramos no interior de um carro, olhando pelo para-brisa, a chuva a cair lá fora. Vi, turvado assim, aquele caminho, e que mesmo com pouca visibilidade, por ali eu seguiria, pois o que toldava minha visão, impedindo-me de enxergar o que realmente era relevante, chamava-se hipocrisia. Ah!, que inimiga de peso!, por que inserida não na carne, nem digo que no espírito, mas na personalidade (e lobotomias são proibidas no Brasil). Exigiria, pois, outras técnicas, a respeito das quais eu desconhecia casos de tentativas realmente bem-sucedidas. Mas a incursão interior estava se dando; eu ia identificando o mecanismo corruptor do meu ser, embora enxergasse apenas ínfima quantidade do alto teor de hipocrisia contido naquele pensamento seletivo, requeridor de atores geniais para meu teatro pessoal.
O alto grau dessa hipocrisia, imiscuída às qualidades que eu buscava na pretensa família extrassanguínea, dizia-me que eles deveriam ser os melhores, os perfeitos... Não era? Foi o que afirmei, não foi? Pois bem, é importante observar que esse pensar era, indubitavelmente, um pensar engastado de hipocrisia, aquela falsa devoção, obra psíquica que me fizera ter a mim mesma na conta da mais especial de todas as criaturas, espécie de supremacia, reduto de vaidade. Eu nem sequer admitia ou supunha que as pessoas não eram tolas.


Acesse o link abaixo e conheça algumas das nossas obras:

Nenhum comentário:

Postar um comentário