5 de novembro de 2019

Lygia, texto da escritora Maria Montillarez

Lygia,

Em 1974 eu e minha família vivíamos em um lugar inóspito, o exato oposto do nordeste onde nasci: úmido, quentíssimo, muitos mosquitos, malária, febre amarela, lama, mata fechada e índios. Era a Transamazônica em toda sua bruteza.
Eu, que há pouco brincava de rodas, às vezes, em volta da fogueira nas noites enluaradas de São João, jamais imaginara tamanho pesadelo. Agora, nenhuma fogueira iluminava aquele lugar detestável; eu perdia minhas raízes. Meus irmãos se moldaram de pecuaristas e fruticultores que eram, em caçadores. Comíamos carne quando eles matavam um bicho na mata, e conhecemos os sabores do norte do país.
Aos 13 anos conheci a literatura de Lygia Fagundes Telles. As meninas me cativaram, e preciso falar de como esse romance mudou meu curso. Li-o várias vezes, pra poder entendê-lo. Não por culpa do livro, mas de minha leitura deficiente. Até ali, meu histórico vinha sendo infiel à minha escolaridade. Mas queria tanto entender aquelas três meninas!... E como era que a cidade inteira, do livro de Lião, cheirava a pêssego? Eu nunca tinha visto um pêssego na vida! Como se pareceria o cheiro de pêssego? Mesmo que fosse exagero, poderia o cheiro de pêssego ser tão forte a ponto de fazer uma cidade inteira ficar perfumada? O que era pêssego, meu Deus?
Era um questionamento simples, mas para quem jamais questionara coisa alguma, aquela era uma questão que eu precisava solucionar. A cidade seria pequena, tão pequena quê?... Ou os pêssegos seriam enormes, ou tantos?... 
Aquilo me fervilhava à mente. Perguntei a uma professora como uma cidade inteira poderia cheirar a pêssego, que, embora Lorena achasse ser exagero de Lião, a própria Lião tanto sentira o cheiro que escrevera a respeito. Ou Lião apenas imaginara que a cidade inteira cheirava a pêssego? Eu queria saber se minha professora já tinha visto um pêssego. E como era um pêssego?
A professora me disse que depois me responderia. Passou a fugir de mim.
Hoje, acredito que, como vivíamos na mesma região, era compreensível que ela também não fizesse ideia do que fosse um pêssego. Estávamos em 1983, sem Google, a quilômetros de uma biblioteca que tivesse enciclopédia... Enfim, encontrar a gravura de um pêssego pra me mostrar, seria..., usando as palavras da personagem Lorena: exorbitar demais. Quase ninguém ali possuía TV, as que existiam, eram em preto e branco. Além disso, por que alguém comentaria sobre cheiro de pêssegos, na TV?
Nessa época tudo que fosse bom era proibido. Vivíamos em plena ditadura militar. Ah, mas eu adorava muitas outras partes do livro, que decorei, como aquela de "beber água de coco e mijar no mar". Água de coco, eu conhecia muito bem, também a sensação de mijar no rio, lagoa que fosse... O livro me arrancava do mundo real insuportável, e me levava às possibilidades mais incríveis. Aquele livro era para mim! Eu era Lião revolucionária, Lorena virgem, Ana Turva miserável. Mas eu era, sobretudo, a receptora das mensagens implícitas e explícitas na história de cada uma das meninas de Lygia; das causas e consequências das ações de cada uma delas. Dali, eu tirei o ensinamento de dever sempre buscar o equilíbrio. Lygia Fagundes Telles falava comigo, pois minha mãe que me pariu estava longe demais da minha vida e alma. Lygia havia me captado, me adotado e me aconselhava, aconchegava, aconsegurava naquelas páginas. No dia em que nasci, morri. No dia em que abri aquele livro, renasci. Lygia soprou, com sua literatura, uma nova vida em meu cérebro. 
E um dia eu disse isso à Lygia, via e-mail. Ela, aos 94 anos. Eu, já com 13 livros editados e ocupando a cadeira número 7 de uma Academia de Letras em Brasília. Lygia me respondeu, por e-mail, e me enviou a mais recente edição do livro “As meninas”, aquele que movera meu mundo. No autógrafo, Lygia me chama de irmã, e isso por si só valeu minha vida.

Escrever é adotar pessoas.
(Maria Montillarez)

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